terça-feira, 1 de novembro de 2011

Lembre-se: Atire sempre na cabeça



Nesses dias próximos ao dia de finados o morto que mais nos amedronta é Thomas Malthus e sua teoria do limite demográfico da terra. Pois vamos que vamos que atrás vem gente, este mês chegamos à marca de sete bilhões de humanos no planeta, poderá faltar lugar até para os mortos se a escala de crescimento e do consumismo continuar assim. Nossas opções para resolver isso não são muito apreciáveis, no filme de 2006 “Filhos da esperança” as mulheres simplesmente param de terem filhos e a população além de reduzir entra em uma escalada de depressão e barbárie. Ou ainda como em “Fim dos tempos” de 2008 em que as pessoas vão morrendo misteriosamente como se a natureza estivesse se reequilibrando.



Mas em vésperas de Dia de Finados é de se imaginar que se a terra já anda lotada, imagine o mundo dos mortos. Logo é de se esperar que eles voltem ou fiquem dando umas voltas por aqui esperando vagar um lugarzinho no outro mundo quando alguém reencarnar.

Filmes com mortos-vivos ou zumbis não são para qualquer um, depois de uma sessão desse gênero poucos tem estômago para conseguir comer fígado com macarrão. Mas há mortos-vivos famosos do cinema como a múmia e o vampiro, porém por serem mais civilizados não são assim chamados. Todos eles encarnam a ideia de voltar da morte que ao mesmo tempo em que nos fascina também aterroriza-nos, pois nunca esse retorno é visto como algo bom e sim uma maldição.

O primeiro filme com zumbis foi “White Zombie” de 1932, no qual o feiticeiro Legendre revive os mortos para que trabalhem em sua fábrica, que deve ser o sonho de muitos capitalistas gananciosos. Em 1936 ao gosto de Karl Marx uma revolução com ares bolcheviques derruba um conde maligno que os controlava, o nome do filme é “Revolta dos Zumbis”. Depois desse filme termina assim a era dos zumbis por magia negra e voodoo e começa a era dos zumbis modernos criados por George Romero.



Nada mais do velho racismo de maldizer as religiões dos negros, Romero em pleno os movimentos por direitos civis e de igualdade racial nos EUA em 1968 lança o filme “A noite dos mortos vivos” e coloca um negro como protagonista chamado Ben. George Romero cria o zumbi moderno, em putrefação, roupas esfarrapadas, arrastando-se e grunhindo esfomeado por cérebros fresquinhos.

Romero é o pai desse gênero de filme, com roteiros enxutos, escassos cenários, baixo orçamento e nada de final feliz. Os mortos-vivos de Romero são utilizados em seus filmes para fazer críticas a sociedade. Em “A noite dos mortos vivos” não há um final feliz e os zumbis que pesávamos serem os vilões são na verdade retratados como vítimas de uma barbárie que nos leva a ter certa simpatia por esses seres medonhos. Com “Despertar dos mortos” (1978) e “Dia dos Mortos” (1985) o diretor tece críticas ao consumismo com muito sangue e gritos.

De fato eles se tornaram um sucesso no novo formato de Romero, estes apreciadores de miolos humanos renderam cenas memoráveis do cinema, como no filme italiano de 1979 “Zombie” em que uma dessas criaturas ataca um tubarão dentro do mar, sem dublê e com um tubarão real.

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Tivemos alguns filmes de zumbis nos anos 80, mas nos anos 90 eles voltaram para suas catacumbas e sumiram por um tempo, para retornar com tudo no século XXI. Pelas pesquisas da Fundação Umbrella no filme “Resident Evil” (2002) e “Extermínio” (2002), lançam os mortos-vivos por vírus que fogem do controle de alguma pesquisa científica do governo ou corporação. Estes são os zumbis turbinados, correm, lutam e são muito inteligentes.

Filmes com zumbis podem parecer bobos, irreais ou até estúpidos, mas eles podem ser utilizados com uma sutileza para levantar as questões mais delicadas de nossas sociedades. No começo era o voodoo com os costumes dos negros, depois veio com Romero um discurso sobre como a existência de zumbis pode mexer com nossa sociedade civilizada e como essa mesma pode revelar uma natureza ainda mais cruel que a dos próprios zumbis. Os filmes com acidentes radioativos e com vírus expressam nosso medo com uma guerra nuclear ou com os limites éticos das pesquisas científicas. Com “Madrugada dos Mortos” (2004) e “Terra dos mortos” (2005) o gênio Romero pinta com sangue as críticas contra uma sociedade desigual e consumista.

O gênero é tão plástico e fecundo que foram laçados no formato mockumentary (filme que imita um documentário) em 2007 com o nome de “REC” e “Diário dos Mortos”, em que narra de maneira hiper-realista um mundo com mortos-vivos. Eles se saem muito bem também no gênero conhecido como terrir, como foi em “Fido: o mascote” (2006), no qual os zumbis são bichinhos de estimação, também causam gargalhadas com “Dead Snow” (2009) com nazista zumbis e o melhor de todos, “Zumbilândia” (2009) que foi o filme sobre zumbis com maior bilheteria, bateu no ano até o filme “Paixão de Cristo” de Mel Gibson, que cá entre nós, deve ser a primeira história sobre mortos-vivos. E só para citar mais um, “Zombie Stripper” (2008), no qual uma pesquisa que buscava reanimar corpos de soldados mortos em guerras levadas a cabo por Bush em inúmeros lugares saiu do controle, e infecta strippers gostosas que se transforma em devoradoras de cérebros.



Há inúmeras explicações para as causas da volta do mundo dos mortos dessas criaturas, desde greve no inferno, superlotação no além ao mesmo tempo em que Deus tira o telefone do gancho. Quando essas criaturas fazem o inferno na terra, aja garganta das atrizes contratadas para gritar tanto e figurantes feios e com andar de bêbado para serem contratados. O fato é que quando os mortos voltam à vida os vivos podem ser aterrorizantes, quando encontramos a morte podemos deixar de sermos somente corpos que andam em busca de saciar desejos ou num mundo em que mortos voltam à vida, não há mais o medo da morte que segure nossos demônios internos.



Marcelo Almeida Andrade
Formado em Relações Internacionais, apaixonado por arte italiana, comida indiana, cinema americano, literatura russa e pornografia alemã. Acredita que o humor pode mudar o mundo e quer dar a volta ao mundo de bicicleta.